
Na volta dos trabalhos da Câmara Federal, a expectativa será quanto a eleição do próximo ministro do Tribunal de Contas da União (TCU). Nome forte na disputa, a deputada Ana Arraes (PSB) poderá trocar o Poder Legislativo pelo Judiciário, interrompendo uma sequência de quase trinta anos de mandatos da famÃlia Arraes no Congresso. Antes, seu pai, o ex-governador Miguel Arraes, falecido em 2005, e seu filho, o governador Eduardo Campos (PSB), ocuparam o espaço em três legislaturas, sempre com expressivas votações.
A única exceção nesse perÃodo foi em 1986, quando Arraes, ainda no PMDB, se elegeu governador pela segunda vez. Em uma eventual saÃda da socialista, não serão apenas os 387.581 votos que estarão em jogo para 2014, como também o capital polÃtico do grupo, que teria que indicar outro nome para o pleito proporcional. Na polÃtica brasileira, é relativamente comum encontrar integrantes de uma mesma famÃlia ocupando cargos eletivos em esferas diferentes.
Na Assembleia Legislativa de Pernambuco, por exemplo, pelo menos 27 dos 49 deputados têm parentesco com algum prefeito, ex-prefeito ou ex-parlamentar. A questão do sobrenome tem seu peso para o eleitor na hora de escolher os candidatos que representarão seus anseios. Na hipótese de que aquele nome de sua preferência esteja atuando em outro cargo, o mesmo tende a optar por um integrante do mesmo grupo que o anterior. O cientista polÃtico Hely Ferreira classifica essa prática como uma espécie de “monarquia republicanaâ€.
“Existem famÃlias que sempre estão na esfera do poder, seja a nÃvel municipal, estadual ou federal. Quanto mais distantes dos grandes centros, ou seja no Interior, isso se torna mais claro. A maioria desses polÃticos geralmente esteve na base da Ditadura Militar ou do curral eleitoral. É uma tradição na polÃtica brasileira. Você tem alguns exemplos, como o ex-senador Antônio Carlos Magalhães (BA) que indicou o filho, e o ex-governador Joaquim Roriz (DF) que colocou a esposa como candidataâ€, analisa Hely.
O estudioso, entretanto, diferencia a famÃlia Arraes das tradicionais oligarquias. “As oligarquias são grupos que usam determinadas situações para se manterem no poder. A figura de Arraes como mito fez com que, por tabela, levasse o neto e depois a filha. Isso ocorre por reflexo do mito que o ex-governador Miguel Arraes representa. A famÃlia tem consciência de que esse mito não se substitui, mas ele cria um imaginário popular. Tanto que a própria Ana Arraes disse, no ano passado, que atribuÃa a sua votação ao seu desempenho como deputada, mas também ao fato de ter como cabos eleitorais o pai e o filhoâ€, explica.
Para o cientista polÃtico Adriano Oliveira, a herança polÃtica deixada pelo avô, somada aos bons resultados colhidos por sua administração, deixarão o governador Eduardo Campos com forte capital polÃtico até 2018, o que lhe garantiria grandes chances de indicar seus sucessores. “Com o advento de Eduardo, ele trouxe alguns novos herdeiros, como (o secretário de Cidades) Danilo Cabral (PSB) e a deputada Ana Arraes, que são de sua confiança. E como Eduardo continua sendo uma liderança bem avaliada localmente e nacionalmente, ele tende a ter uma potencialidade de conquista de poder muito grande. Consequentemente, deve atrair mais pessoas para seu grupo polÃtico, inclusive de partidos como DEM e PSDBâ€, aponta Adriano.
Dessa forma, na visão do estudioso, os votos que ficariam em aberto com a possÃvel ida de Ana Arraes para o TCU seriam divididos entre o grupo de Eduardo Campos. “Os votos ficariam, em princÃpio, com os aliados do governador e com outros nomes que ele venha a querer lançar, que poderiam ser os secretários Geraldo Júlio (Desenvolvimento Econômico) e Tadeu Alencar (Casa Civil), além de outros aliados, como o deputado Inocêncio Oliveira (PR). Eduardo tem uma expectativa de poder no Estado até 2018, o que corresponderia a duas eleições municipais e duas estaduais. Mas dificilmente haveria ameaças à hegemonia do PSB em Pernambuco hojeâ€, ressaltou.
Por Manoel Guimarães | Da Folha de Pernambuco

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